Curiosamente, segundo Eduardo Yazigi (1996), a calçada portuguesa é de origem oriental e é composta por pequenos cubos de pedra coloridos ou monocromáticos. Historicamente temos três grandes períodos em que estes tipos de mosaicos de pavimento aparecem: o mais antigo é o de seixos que surgem do século 8 ao século 3 a.C), o segundo é o de cenas pictóricas (século 3 ao 1 a.C). O terceiro é de características greco-romano (de 1 a.C a 7 d. C) “quando houve uma verdadeira industrialização desta arte” (YAZIGI, 1996, p. 106).
Figura 1: Mosaico Greco-Romano nas ruinas da cidade Zeugma /Turquia 3 a.C

Fonte: https://www.brasil247.com/oasis/zeugma-dos-mosaicos-novas-descobertas-na-pompeia-turca (acesso em 21/11/2022)
Nossa primeira constatação é de que o calçamento em mosaicos em vias públicas nas cidades, historicamente, é bem antigo, estando presente em vários sítios arqueológicos do oriente ao ocidente. Um bom exemplo está na histórica Pompeia cidade italiana, destruída e soterrada após erupção do Monte Vesúvio em 79 d.C e descoberta no século XVIII.
Outra constatação é, que do mosaico romano ao mosaico português há diferenças dignas de nota, uma vez que definem caraterísticas, estéticas e narrativas autônomas. Enquanto o mosaico romano é elaborado com pedras, vidros e outros materiais para uma arte decorativa, colorida e delicada o mosaico português é elaborado com pedras calcárias bicolores, de fundo utilitário, criado para ser pisado e resistir às intempéries.
Conforme o “Manual da Pedra Portuguesa”: “Esta expressão cultural portuguesa é pois uma herança histórica de um misto da cultura e tecnologia de construção dos romanos e dos árabes, que acabou por se impor em Portugal no século XIV durante o reinado de D. João II” (HENRIQUES ET AL, 2009, p.5).
Em Portugal, no século XIV, durante o reinado de D. João II, nas importantes cidades de Lisboa e Porto, “a opulência e o luxo trazido pela rentabilidade comercial abre caminhos a uma nova sociedade que leva à criação das chamadas “Ruas Novas”, junto às áreas ribeirinhas, onde se concentravam as grandes fortunas e as lojas de mercadorias” (HENRIQUES ET AL, 2009, p.13).
Segundo Henriques et al (2009), D. João II, influenciado e apaixonado com a qualidade desse tipo de enredamento das vias, manda empedrar a Rua Nova de Lisboa. Entretanto, para os autores, foi seu sucessor, D. Manuel I, que depois de trinta anos concluiu a obra da Rua Nova, a qual, com os seus duzentos metros, foi considerada pelos cronistas da época como a mais internacional das ruas quinhentistas.
Em Lisboa, após os terremotos de 1531 e 1551, as calçadas empedradas se tornaram presentes nos novos arruamentos como uma solução viável. Depois do terremoto de 1755, com a necessidade urgente de recuperação das antigas e na abertura de novas ruas, o urbanismo e as vias públicas da cidade são repensados e estruturados.
Com as características de que hoje conhecemos, como Calçada Portuguesa, o governador do Castelo de São Jorge, o Tenente-General Eusébio Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado (1777- 1861) “transformou a fortaleza e os seus arredores em lugares de passeio onde foram introduzidas flores, arvoredo e calçada mosaico” (HENRIQUES ET AL, 2009, p.13).
A beleza e a funcionalidade deste trabalho, levaram a Câmara de Lisboa a reconhecer a importante obra do Tenente-General Eusébio Furtado, incentivando-o a prosseguir com outras iniciativas de carácter paisagístico.
Em 1848, Eusébio Furtado tem aprovado seu projeto para a famosa Praça do Rossio, uma área de 8.712 m² com o uso da calçada empedrada em mosaico.
Figura 2: Praça do Rossio em Lisboa/Portugal

Fonte: Litografia MC. GRA.1461 – Museu de Lisboa (FERNANDES ET AL, 2017)
Historicamente, o mosaico ou calçada portuguesa alça progressivamente grande sucesso e hoje está presente em espaços icônicos em vários lugares do mundo, com essa terminologia inclusive no Brasil.
No Brasil a calçada portuguesa chega primeiro na cidade de Manaus no estado do Amazonas em 1905 junto às obras de urbanismo e de saneamento público. Logo depois chega as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e progressivamente em muitas cidades brasileiras, chamando a atenção de observadores estrangeiros pela beleza e arte.
Figura 3: Largo de São Sebastião em Manaus/AM no Brasil

Fonte: Acervo digital UNESP [3]
Na cidade mineira Belo Horizonte no Brasil, a calçada portuguesa chegou nos primeiros anos da década de 1930. Belo horizonte naquela época, passava por uma reforma na cidade e várias ruas e avenidas receberam o calçamento em pedras portuguesas. Ao observarmos as calçadas, podemos reparar que são vários e diferentes mosaicos revelando a em belos “tapetes” a herança do calcetamento português.
Por outra lado , em diversas calçadas observa-se outras temáticas inclusive de influência da arte e indígena brasileira como, por exemplo, o empedrado da calçada em mosaico da Praça Raul Soares que, entre estes, traz desenhos semelhantes ao desenho e figuras da arte Marajoara.
Figura 4: Praça Raul Soares em Belo Horizonte/MG/Brasil
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Fonte: Robhson Abreu. Globo G1[4]
Grosso modo, a execução da calçada portuguesa é considerada um trabalho artístico realizado por calceteiros especializados que em sua maioria permanecem obscuros. A figura do calceteiro-artista era a mesma do calceteiro-obreiro que segundo Eduardo Yazigi (1996, p.112) eram “de origem humilde, um peão de obra” até que este tipo de calçada passou a ser apropriado por arquitetos e paisagistas renomados.
Para Yazigi (1996, p. 99) “desde que o automóvel entrou em cena, as cidades se adaptaram cada vez mais ao sistema rodoviário, diminuindo a importância do pedestre”. Nessa perspectiva o lugar de circulação e trocas e inserção social para o pedestre tem sido ressignificados e alguns espaços urbanos têm sido renovados. Muitas cidades europeias aderiram a esse movimento de acabamento urbano de forma artística notável.
Entretanto e de modo geral, tanto em Portugal como no Brasil, infelizmente, a calçada portuguesa em vários lugares icônicos e simbólicos tem sido destruída seja por falta de manutenção ou por simples descaso pelo espaço público das cidades. Nessa perspectiva, há alguns defensores e divulgadores de sua importância histórica, artística e cultural como, por exemplo, o jornalista e pesquisador português Ernesto Matos.
Na obra “Calçada Portuguesa: uma presença no mundo”, Matos (s/d), revela inúmeros registros fotográficos de calçadas portuguesas em inúmeros sítios em vários países e pelo mundo afora. Um dos marcos de sua obra e publicações é a defesa pelo significativo legado histórico e artístico-cultural destas calçadas.
Hoje no Brasil, há sítios históricos em muitas cidades protegidos pelo Conselho de Patrimônio Cultural. Em alguns destes sítios se encontram esse tipo de calçada, que de certa maneira, também, estão protegidas.
Outro aspecto relevante levantado por Henriques (2009): “A Calçada Portuguesa é uma actividade com história e tradição, cuja continuidade se revela para muitos bastante problemática, quer pelo aumento dos custos de manutenção das pedreiras e equipamentos, quer pelas dificuldades ambientais e legislativas que, hoje em dia, as pedreiras enfrentam” (HENRIQUES, 2009, p.14).
Nesse sentido, hoje há muito o que se considerar com relação tanto sobre a preservação e manutenção das já existentes calçadas portuguesas como sobre novos calcetamentos nestes moldes. Desde a extração das pedras até o trabalho do calceteiro é um processo que envolve de forma profunda e articulada muitos aspectos como, por exemplo, a geologia, a tecnologia, a formação de calceteiros, a arte, a economia, a arquitetura, o urbanismo, a história e a cultura das cidades.
Portanto, abordar a temática das calçadas portuguesas, nos remete ao tema da cidade e de modo geral ao seu significado sociocultural, uma vez que a cidade é um lugar e um espaço criador de cultura.
Nessa perspectiva, Oliveira et al (2020, p. 1), sinalizam que “a cidade é uma construção coletiva, lugar das vivências e convivências, do sentido de e para uma vida digna, ela deve ser compreendida, pensada, debatida, formulada e reformulada”.
São construções que se constituem e se entrelaçam do individual ao coletivo por meio da generalidade de seus habitantes em um tabuleiro multicultural e em algumas perspectivas em gestos decoloniais.
[1] https://www.natgeo.pt/fotografia/2021/03/imagens-recentes-das-magnificas-ruas-e-reliquias-de-pompeia?image=cjns_1947_deposito_achados_parque_arqueologico_pompeia-large .Acesso em 21/11/2222
[3] https://acervodigital.unesp.br/handle/unesp/179390?mode=full. Acesso 10/04/2023
[4 ] https://images.app.goo.gl/6cABbfcvADjrRnqn9. Acesso em 25/11/2022
REFERÊNCIAS
FERNANDES, Lídia; BUGALHÃO, Jacinta; FERNANDES, Paulo Almeida. – Catálogo da Exposição – Debaixo dos nossos pés: pavimentos históricos de Lisboa. Museu de Lisboa, 2017.
HENRIQUES, António Manuel Esteves; MOURA, António A. Casal; SANTOS, Francisco Amado. Manual da calçada portuguesa. Lisboa: Direção Geral de Energia e Geologia &EDM/AS, 2009.
MATOS, Ernesto. Calçada portuguesa: uma presença no mundo. [42fotos] Lisboa: Ernesto Matos, S/D.
OLIVEIRA, Fabiano Melo Gonçalves de; NETO, Manoel Lemes da Silva. Do direito à cidade ao direito dos lugares. In. Revista Brasileira de Gestão Urbana. Curitiba: EPUB, Vol 12. Apr.17, 2020. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-33692020000100208#B023. Acesso em 20/10/22.
SENNETT, Richard. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: BestBolso, 2021.
SCHILLER, Friedich. A educação estética do homem. São Paulo: Iluminuras, 1990. Tradução: Roberto Schwarz e Marcio Suzuki.
SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira. Corpo, comunicação e cultura: a dança contemporânea em cena. Campinas: Autores Associados, 2006.
YAZIGI, Eduardo. Breve histórico sobre a arte de calcetaria em Portugal e no Brasil: o caso do mosaico português. Paisagem e Ambiente. São Paulo n.9, pag. 99-123. Dez 1996. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2359-5361.v0i9p99-123 . https://www.revistas.usp.br/paam/article/view/133995. Acesso em 10/04/2021
CURIOSIDADES SOBRE A ORIGEM DAS CALÇADAS PORTUGUESAS E SOBRE OS CALCETEIROS
Aqui organizei alguns videos sobre os calceteiros. Nestes videos têm inclusive entrevistas e narrativas com alguns desses sujeitos que contemporaneamente vêm desenvolvendo esse trabalho a arte da calçada portuguesa em Portugal e no Brasil.
